Conto de Sentir
Rafael reclamava. Havia crescido em meio ao consumo inevitável de cultura pop, em que não só em novelas e filmes românticos – cujas obras não o interessavam – mas também em livros, filmes de ficção científica e músicas predominava o amor sofrido. Doloroso. Superador de barreiras. Talvez a personificação de um corredor da modalidade com obstáculos. Esse sentimento havia se formado, para ele, como dependente da dor, o que justificava a reclamação. Ele pensava consigo: “Por que o amor dói? E não só o amor. Parece que todo sentimento que tenho carrega o sofrer. Que bom seria ser insensível, dormente, capaz apena de sentir o prazer, a felicidade plena".
Em outro plano, Maria sofria. Reclamava a Deus a necessidade do luto: que motivo havia para que seu filho fosse levado tão cedo? E com essas condições? Com 10 anos ele a deixara, sofrera em vida a dor do não sentir, condição rara: Síndrome de Riley-Day.
Ruan nascera bem, saudável – aparentemente – mas com essa deficiência atroz. Passara a infância assim. Não sentia dor, tampouco mudanças de temperatura, ainda que desejasse com todas as forças sentir o peso da agulha que entrava em sua pele durante injeções, que visavam lhe proteger. Proteger de quê? Não importava o que lhe afligisse, a dor era nula. Porém, por não ter a experiência do sofrer, mal sabia Ruan que a dor que sentia, por não sentir, era maior que qualquer dor de Rafael.
Ruan faleceu aos 10, a insensibilidade não o fez perceber a profundidade do corte que ganhou quando caíra enquanto brincava. (Sozinho, pois não podia ir muito longe aonde as outras crianças se divertiam). Consequências, por conta da demora do tratamento, foram acumulando-se como uma bola de neve e resultou no pior...
A insensibilidade dói. Doeu sua vida inteira, como nunca sentira Rafael. Imenso era o sofrer pela incapacidade de sentir.
Mas Rafael reclamava, porque sentia e não queria sentir. O amor, pra ele, precisava doer. E doía demais. Estava decidido a partir dali a treinar-se para negar o amor, que esse sofrimento fique para outros, a ele somente a felicidade plena... Contudo, nunca fora feliz. Rafael morreu de velhice, aos 94, e só percebera já tarde que sentir era a chave. O amor não precisa da dor, do sofrer. Mas a sensibilidade, a mágoa e a ferida é que permitem distinguir o que é feliz, o que é amor, o que é a necessidade do sentir.
Insensibilidade dói, fere, machuca, e faz isso silenciosamente. Sentir avisa: Vai doer, mas é preciso. Os dias ruins são esses, preciso que os sinta para que os dias bons possam ser identificados. Preciso que doa, para que entenda não o que o Amor e a Felicidade são, mas o que não são.
Como deixar de sentir essa angústia paradoxal? Sente-se muito e se sente muito por sentir o que machuca. Mas sentir ensina: nem tudo é urgente, é preciso aprender quando é hora de ser feliz.
João Pedro Santos
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